Meditação: um meio de intervenção no cárcere?

[:pb]A meditação, assim como diversos frutos de culturas distantes da nossa própria, foi, ao longo dos anos, por nós tratada com um misto de ignorância e desprezo. Felizmente, acredito que a cada ano demonstramos mais disposição à abertura ao diverso. Cada vez chegamos mais perto de compreender as palavras do extraordinário pesquisador norte-americano Joseph Campbell, que, décadas atrás, após muito se debruçar sobre mitologias e religiões das mais diferentes partes do mundo, escreveu: a meditação é “a mais profunda, ampla e mais completamente testada e provada teoria da natureza… que a ciência de qualquer parte já produziu”. Como poderíamos virar a face para o mais belo fruto de tradições que datam de milhares e milhares de anos atrás?

É verdade que nossa sociedade ocidental seguiu caminhos próprios. Freud, por exemplo, chegou a afirmar que suas teorias foram as primeiras da história humana a explorar o inconsciente de maneira efetivamente séria, científica, “em questões que tocam pessoalmente cada indivíduo e o forçam a assumir alguma atitude em relação a esses problemas”. E, como Freud, acreditamos em coisas assim.

Gostamos de ver a nós mesmos como o ápice de qualquer civilização humana. Poucas posturas podem ser mais tristes. E mais absurdas.

Em 638 d.C., o Sexto Patriarca do Zen-budismo dizia: “o conceito de Inconsciente é o fundamento do Zen-budismo”. O Hinduísmo, que busca origem nos Vedas – documentos que datam, estima-se, de quatro mil anos antes do nascimento do nosso Sigmund Freud –, “fala-nos da estrutura e das potências mensuráveis da psique”, diz Zimmer, “analisa as faculdades intelectuais do homem e as operações de sua mente, avalia várias teorias do entendimento humano, estabelece os métodos e as leis da lógica, classifica os sentidos e estuda os processos pelos quais aprendemos, assimilamos, interpretamos e compreendemos as experiências”. E, no Oriente, o instrumento mais testado e certificado de compreensão das vastidões da mente humana foi, sem dúvida, a meditação.

Nós, porém, tendemos a ignorar tudo isso!

Felizmente, mesmo no Ocidente não são todos que escolhem esse caminho que mistura autoengrandecimento e ignorância em relação ao diverso. Os místicos cristãos, por exemplo, falam de uma realidade transcendente à mente. Entre os inúmeros autores que se alinham a ideia meditativas, podemos citar Merton, que alerta para a necessidade de que observemos além de pensamentos e imagens; Meister Eckhart, que dizia que “estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus e estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus”; e, no exemplo mais famoso, Alberto Caeiro, heterônomo-mestre de Fernando Pessoa, que procurava fazer de sua vida uma contemplação pelos sentidos, transcendendo a mente – exatamente o que muitas técnicas meditativas buscam.

Diversos estudos têm constatado, em pessoas que praticam meditação longamente, não apenas alterações fisiológicas, mas também patamares mais elevados de consciência e respeito à existência. Diminuem os estados psicológicos que tendem ao egoísmo e ao embate, aumentam estados ligados à compaixão e à empatia.

Também foram constatadas mudanças funcionais e estruturais no cérebro do praticante. “Além disso, uma pesquisa que comparou o afeto positivo entre meditadores experientes e um grupo-controle revelou que, mesmo em níveis basais, os meditadores apresentavam níveis significativamente maiores de afeto positivo, corroborando o pressuposto das filosofias orientais”, concluem Menezes e Dell’Aglio.

Como tudo isso poderia seguir ignorado?

Meditação e Cárcere

Entendo a preocupação de quem diz que intervenções no cárcere são, muitas vezes, meios de legitimar o encarceramento. Entendo também quem entende que tentativas de pacificar ambientes carcerários acabam por fortalecer a tragédia tão conhecida e tão bem diagnosticada por Foucault: forjam-se corpos ainda mais dóceis e úteis. Entendo tudo isso. Em alguns casos, posso concordar. Em outros, não.

No caso da meditação, não. Porque seus resultados positivos se aplicam a qualquer ser humano. Dar essa oportunidade a qualquer ser humano parece ser, em si, uma bênção – certamente é o que muitos entusiastas da meditação defendem. Se servir a pacificar a mente dos praticantes e, por consequência, pacificar o ambiente em que os praticantes se inserem, ótimo. Seja o ambiente que for. Por que excluiríamos o cárcere?

E há experiências de meditação em presídios.

Dois documentários devem ser destacados – e podem ser facilmente encontrados na internet: The Dhamma Brothers e Doing Time, Doing Vipassana. Os filmes tratam da implementação da meditação vipassana em penitenciárias: o primeiro, nos Estados Unidos; o segundo, na Índia.

Nos dois casos, a experiência meditativa é a seguinte: um grupo de pessoas, durante dez dias seguidos, mantém silêncio quase absoluto, praticando intensivamente algumas técnicas de relaxamento, concentração e atenção (“mindfulness”, em termo que vem se tornando cada vez mais conhecido).

A ideia, em essência, é despertar a consciência do praticante para a realidade transcendente ao caótico mundo mental corriqueiro.

Pela meditação, a realidade cotidiana – de conflitos, caos, prêmios e castigos, vícios e dores – é reconhecida como mera construção mental, mera narrativa em que acreditamos. Uma vez reconhecida, pode ser transcendida, abrindo espaço para outra realidade, em que os discursos e os rótulos cedem lugar para o silêncio, para a realidade última, para o que simplesmente é.

Para o meditador, o resultado não importa. Nem sequer faz sentido buscar qualquer resultado. Apenas faz sentido a experiência. Mas, para nossas mentes famintas por resultados palpáveis, as experiências no cárcere resultaram num índice bastante grande de incremento de estados emocionais positivos nos participantes, tendo muitos deles manifestado a intenção de participar novamente dos programas. Sua relação com o mundo ao redor tende a melhorar sensivelmente. E, por consequência, o ambiente prisional também é transformado positivamente.

No mesmo sentido foram as conclusões do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, no Reino Unido, após estudo com 103 presidiários que voluntariamente se submeteram a rotinas de meditação.

Não quero em nenhuma medida defender a prisão, nem dar a entender que a meditação deva ser imposta. Esse tipo de raciocínio não faz qualquer sentido, aliás. Impor meditação é uma contradição nos próprios termos. E a meditação é, em sua própria essência, libertação, o que não combina com qualquer prisão.

Mas, se temos esse instrumento ao nosso dispor e se, finalmente, passamos coletivamente a nos abrir para ele, por que não explorá-lo? Em casa. No trabalho. No trânsito. Numa manhã tranquila de domingo. Numa noite agitada de segunda-feira. No presídio. Resultados não importam ao meditador. Mas resultados vêm. E, se cultivarmos uma mente aberta – uma postura essencial a qualquer meditação –, muitos resultados mais podem vir.

Fonte: Justificando[:]

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