News#10 – O que é jointfulness?

Olá! 

Nesta newsletter de maio, escolhi falar sobre um conceito-chave dentro do meu trabalho, que traduz com muita fidelidade aquilo que é o mais essencial dentro do Método Kaiut: os estímulos articulares seguros como protagonistas do processo de reconexão entre corpo e mente. Nomeei esse conceito de JOINTFULNESS.

Reuni nesta newsletter muito do que venho estudando e construindo sobre jointfulness, além de uma história real direto da sala de aula, como uma forma de mostrar como ele funciona na prática. 

Espero que goste! Boa leitura. 

– Francisco Kaiut 

Jointfulness é o estado de presença obtido por meio do estímulo de uma ou mais articulações. Cada estímulo articular proporciona uma reconexão neurológica importante entre o corpo e a mente. Na concepção do Método Kaiut, cada posição de yoga é desenhada para ser um sistema de alavancas que atua biomecanicamente, estimulando um alinhamento entre o cérebro e cada parte do corpo. Esses estímulos funcionam como um realinhamento natural do organismo, físico e neurologicamente, com a nossa natureza ancestral altamente funcional.

Para gerar resultados, esses estímulos precisam ser lidos pelo organismo como 100% seguros. Ou seja, cada posição durante a aula deve ser feita de maneira ótima para o aluno. Isto é, a ideia não é replicar a posição do professor ou de outros alunos, mas entender até que ponto seu corpo consegue ir sem provocar sensação de dor ou desconforto exagerado, porque isso traria insegurança para o organismo. Sem segurança, não existe estado de presença, não existe jointfulness. 

Acredita-se que as articulações têm uma conexão imediata com o cérebro, sendo uma via de acesso muito rápida para o sistema nervoso. Dessa forma, quando uma posição de yoga, realizada de forma segura e constante, estressa positivamente uma articulação, isso resulta em uma reconexão entre aquela área e o cérebro. 

Considere um praticante de 60 anos, com rigidez lombar e que não curva sua coluna há anos. Durante a prática de Kaiut Yoga, ele será encorajado a curvar as costas durante as posições. Sempre de forma segura, conservadora e confortável. O objetivo não é forçar o movimento, mas fazê-lo com consistência para que esse estímulo em toda a região lombar lentamente faça com que o cérebro volte a reconhecer aquela ação. Aos poucos, o cérebro trabalhará neuroplasticamente e criará novas conexões neurais com o corpo todo, inclusive com aquela região sem mobilidade, para que o movimento se torne disponível mais uma vez. 

Essa é a lógica do jointfulness. Estimular as articulações para que o cérebro seja capaz de reorganizar-se e criar novas conexões neurais. É muito importante fazer essa reconexão neurológica com os movimentos do corpo, afinal, não é o corpo que muda o cérebro, mas o cérebro que muda o corpo. Por isso, todo o trabalho articular precisa ter como objetivo esse alinhamento neurológico. Um sistema alinhado vai responder de forma integrada, trazendo benefícios palpáveis como restabelecimento de mobilidade, resgate de funções corporais perdidas, massageamento de órgãos para um melhor funcionamento e, a longo prazo, a conquista da longevidade. 

“Certa vez, um aluno meu de muitos anos, inclusive era professor de yoga também,  pediu a minha ajuda para lidar com a mãe dele. Era um cara super envolvido com a prática de yoga, e trabalhava, inclusive, com outras coisas ligadas à saúde natural. Ele me procurou pedindo ajuda porque toda vez que tentava levar a prática de yoga para sua mãe, duas coisas aconteciam: primeiro, havia uma enorme resistência emocional da parte dela. Ele nem sabia dizer se era cultural ou alguma história de trauma; a segunda era uma reação péssima do corpo da mãe quando ele conseguia convencê-la a tentar. Dores e muito desconforto. 

Pedi a ele, então, alguns vídeos da mãe dele caminhando. Eu precisava de informações que me ajudassem a elaborar a melhor forma de abordar esse trabalho, por isso ele me mandou alguns vídeos dela caminhando para várias direções diferentes. Assim eu vi com clareza quais eram seus padrões de mobilidade. 

Ela era uma mulher idosa super frágil, com um desenho de corpo que deixava claro a falta de vitalidade, disposição e subutilização desse corpo há muitos anos, talvez décadas. 

Minha primeira sugestão para ele foi que deitasse sua mãe em uma cama, com as pernas para cima apoiadas na parede. Uma posição clássica de abertura, bastante simples, mas poderosa. 

Em menos de dez dias fazendo esse movimento diariamente eu já tive o primeiro relato dele: “minha mãe gostou muito de deitar com as pernas para cima, e se sentiu bem fazendo isso. Qual é o nosso próximo passo?”. 

Por conta do formato da coluna que essa senhora tinha, eu sabia que o próximo passo seria deitá-la no chão. Foi o que sugeri. 

Com o apoio do meu aluno, ela começou a deitar-se no chão, com a barriga para cima e cabeça apoiada. A ideia era deixá-la solta, largadinha ali no chão, com os apoios necessários na cabeça e atrás dos joelhos. 

Em 5 minutos de prática, a coluna abriu. Então, eu pedi para que essa posição fosse repetida diariamente, 5 minutinhos apenas com as costas no chão. A cada nova semana, ele devia aumentar 1 minuto na permanência. 

Então, essa prática diária virou um verdadeiro ritual.

Na semana em que chegaram aos 8 minutos de permanência, ele me relatou que a mãe tinha acordado logo no primeiro dia se sentindo muito dolorida, em todo o corpo. Só que, ao mesmo tempo, ela descrevia uma sensação de bem-estar inexplicável, nem ela sabia dizer como estava se sentindo bem ao mesmo tempo que tinha a sensação dolorida. 

Desse ponto em diante, começamos a variar. Incorporei no trabalho com ela abertura de braços com palma para cima, diferentes ângulos de braço, comecei a tirar os apoios… Com segurança e consistência, o corpo dela reagiu muito bem.

É muito interessante notar que o que eu fiz foi muito simples: peguei um corpo curvadinho e deitei no chão. 

Quando as articulações foram estimuladas nesse ambiente de segurança, a reconexão com o cérebro aconteceu e, naturalmente, o mesmo começou a enviar mensagem para os músculos pedindo por suporte para o corpo. Eu fui capaz de contrariar aquele padrão de envelhecimento que era muito forte nela e é muito comum: posição curvada e caída para frente. 

Veio a reação muscular positiva, saudável e natural. Sensação de bem-estar e uma melhora significativa no caminhar. Aquela dor da prática? Foi dissipada.

Isso é jointfulness. Os estímulos articulares seguros e constantes devolvendo mobilidade.” 

Essa é só uma das muitas histórias que presenciei ao longo dos anos, todas fundamentais para que eu desenvolvesse meu trabalho e chegasse à conclusão de que, para ter estado de presença, precisa ter trabalho com o corpo. Mais especificamente, precisa ter estímulos articulares! 

O que achou desse conceito?

Pratique sempre com inspiração, 

Francisco Kaiut  

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